Dentro de exactamente um mês devo estar a embarcar no RSS Ernest Shackleton, algures na Cidade do Cabo, na África do Sul.
Por enquanto ainda estou em Cambridge, mais concretamente na sede do British Antarctic Survey. Após uns meses intensos de treino (que tentarei elaborar no futuro se possível), as coisas acalmaram bastante por aqui e ando apenas a familiarizar-me com os projectos com que irei trabalhar quando chegar "lá a baixo". Os dias são um misto de monotonia com nervosismo constante. Por um lado o grosso da expedição está já preparada e o treino também, mas por outro estou a tentar planear a minha vida por 15 meses. Estou constantemente com aquela sensação de que me vou esquecer de algo importante, como roupa interior ou os óculos, e que so me vou lembrar quando estiver no barco e já não der para voltar para trás.
Como vim aqui parar afinal? Parece ser uma boa história para inaugurar este blog. Aqui vai então:
No final de Maio passado (2015), estava eu a procrastinar em frente ao meu PC do trabalho quando recebo uma newsletter deveras interessante. Era a newsletter da rede EURES, a qual recebia mensalmente mas que tinha ignorado das outras 98 vezes. Há uns meses que andava a ponderar mudar de trabalho, cada dia mais seriamente que o anterior. A vida de consultor em Lisboa torna-se repetitiva e desinteressante com alguma frequência e a falta de incentivos na altura estava literalmente a empurrar-me para fora da empresa. Ironicamente, se estivesse minimamente satisfeito com as minhas condições laborais na altura, provavelmente teria ignorado esta também, mas o facto de ser sexta-feira de tarde e andar à dois anos a remar contra a maré fez me explorar esta possibilidade.
Até a forma como comecei a receber esta newsletter foi estranha...Logo após ter terminado o curso de Electrónica, tentei ir a uma espécie de "feira de emprego" promovida pelo governo federal alemão em Portugal. Mas sem qualquer experiência pratica, apesar de ter um perfil muito desejado, a única coisa com que sai dessa feira foi com uma inscrição no sistema EURES (European Job Mobility Portal). Desde então passei a receber mês sim, mês não uma newsletter particularmente vaga na maioria das vezes. Excepto esta..
Eis o artigo que captou a minha atenção:
"Vou passar a próxima semana a pensar no assunto. É uma grande decisão! Se para a próxima sexta feira isto ainda fizer sentido na minha cabeça, que se lixe! Uso a última semana para concorrer."
Qual semana qual quê.. Antes de chegar a casa, nessa mesma sexta-feira, já tinha decidido que iria seguir para a frente com a candidatura. Cauteloso como sempre, decidi usar o fim de semana que se seguiu para pensar no assunto sobre todos os ângulos possíveis mas ao chegar ao trabalho na segunda feira seguinte, a primeira coisa que fiz foi abrir o formulário de candidatura.
Apesar da vontade, não consegui adiantar muito nessa semana pois o trabalho, apesar de deprimente, não dava hipóteses. Por mais que tentasse despachar tarefas para poder usar as minhas pausas para adiantar a candidatura, surgiam sempre outras, sempre para ontem (à boa maneira da indústria portuguesa), que não me deixavam concentrar no que importava. No final dessa semana tive que implorar ao meu chefe por férias (apesar de ter quase 30 dias para tirar...). Após algumas reticências, ele lá acedeu. É um pouco estranho ter de implorar por algo ao qual tenho direito, mas esta é a triste realidade da consultoria portuguesa que tanto me desiludiu.
Foi uma semana de reclusão. Viver como um eremita. Um prelúdio de um Inverno na Antártida. Durante essa semana estive em radio blackout: não atendi telefones, não mandei e-mail nem mensagens e a minha pegada online foi marginal. A candidatura era simples num sentido mas complicada noutro. Por um lado não entrava em grandes detalhes técnicos - para isso iria servir a entrevista, mas era a minha única hipótese de conseguir este emprego que, após mais uma semana a ruminar no assunto, comecei a ficar nervoso e queria garantir que presentava a melhor candidatura possível. A maioria das perguntas eram bastante vagas e a melhor forma de as responder seria com exemplos concretos da minha vida profissional até aquele momento.
Coisas como "Já trabalhou em equipas pequenas e em isolamento social?" ou "Dê um exemplo de uma situação em que tenha usado os seus conhecimentos de engenharia". Na altura já tinha grande parte das respostas na minha cabeça mas precisava de trabalhar no discurso, que seria em inglês ainda por cima, e queria também ter a certeza que iria referir os melhores exemplos que conseguia. Precisava de tempo e espaço para pensar e isso era algo que não conseguiria fazer com pessoas à minha volta e a eterna pressão do consultor português.
Levei as coisas muito pausadamente e aproveitei a semana para um merecido descanso também. Para todos os efeitos estava de férias não é?
A data limite para apresentar a candidatura era no Domingo, 14 de Junho de 2015. Terminei o primeiro esboço algures na 5ª feira antes e usei o restante tempo para rever o discurso e caçar algum erro que ainda persistisse. Submeti o formulário de candidatura na madrugada de Domingo, por volta da 1 da manhã. A partir dali não havia mais nada a fazer senão esperar pelo melhor.
Os dias que se seguiram foram muito estranhos. Foi difícil manter-me concentrado. Por um lado não queria ficar a remoer no assunto. A data limite de comunicação do resultados estava marcada para 3 semanas depois, a 9 de Julho mas eu tinha esperança de saber algo antes. Além disso estava a concorrer para o U.K, o que significava que iria ter uma resposta em qualquer caso.
A primeira semana foi tranquila pois sabia ser muito cedo para resultados, por isso até estava relaxado. A partir da 2ª semana é que as coisas começaram a complicar. Cada vez que chegava de manhã ao trabalho e consultava os mails da noite, ansiava sempre pela famigerada resposta, mas em vão. Era difícil concentrar-me pois não tinha concorrido a mais uma das milhares de consultoras que por aí andam. Caso ficasse seleccionado, iria fazer algo completamente diferente e isso tornava as minhas tarefas, que já estavam bastante rotineiras até aquela altura, irritantes.
Até que finalmente algo aconteceu. Numa tarde de Sexta-feira, vindo eu de mais uma das múltiplas reuniões do dia, chego ao meu lugar e deparo com um e-mail de Cambridge. Decidi não perder tempo com especulações. Abri e li a coisa num instante. Uma convocatória para uma entrevista dali a duas semanas, em Cambridge.
Primeiro respirei de alívio. Menos uma. Depois comecei a fazer contas de cabeça e a planear as coisas. Duas semanas passam num instante e tinha de marcar voos para o UK o mais depressa possível. Com a entrevista, as coisas começaram a tomar contornos mais arriscados. Como qualquer reles assalariado português por estes dias, o meu orçamento para viagens e imprevistos era.. zero. Felizmente tinha recebido o reembolso do IRS dias antes e, apesar de não ter sido grande coisa, dava para cobrir parte das despesas. A minha entrevista no BAS foi patrocinada pelas Finanças Portuguesas.
Convém referir um aspecto importante neste ponto: o BAS indicou-me logo no início do processo que não comparticipava despesas de deslocação e alojamento. O BAS é financiado directamente pelos contribuintes ingleses e, como qualquer instituição científica neste dias, está sujeita a um orçamento limitado. Este é um dos lados mais negros do capitalismo na minha opinião. Depois de terem descoberto o buraco do Ozono nos anos 80 e praticamente terem salvo a humanidade de uma praga de cancros de pele e outras maleitas, o BAS continua a ter de depender de doações e subsídios. Entretanto, qualquer startup que assente o seu negócio nas novas tecnologias da informação ou banca, não contribui em nada para o melhoramento da sociedade mas ao fim de um ano de operações já permite viagens em primeira classe e hotéis de 5 estrelas a qualquer gestor mediano que tenha que ir lidar com "o cliente". Há uma certa inversão de prioridades a meu ver...
Continuado, ir a Cambridge era certamente um "gamble", principalmente considerado o estado das minhas finanças. Mas eu nunca conseguiria viver comigo mesmo se deixasse uma oportunidade destas escapar apenas para ficar com mais uns trocos na conta.
Lá reservei os voos e o hotel. Fui para Cambridge no Domingo antes da entrevista e voltei na 3ª seguinte. Apesar da entrevista apenas ter durado a manhã de 2ª feira, os voos disponíveis na altura ditaram este horário. Como antes, lá implorei ao meu chefe por mais 3 dias de férias (em Julho... oh a afronta!) que foram cedidos com alguma desconfiança,
Apanhei o primeiro voo demasiado cedo no Domingo, cerca de duas semanas depois. A única pessoa que sabia do meu paradeiro na altura era a minha mãe e mesmo ela apenas sabia que eu ia a uma entrevista e mais nada, Nada de Antártidas para ninguém por enquanto.
A viagem foi surpreendentemente tranquila. Tirando alguma dificuldade em arranjar um táxi no Domingo de madrugada, devido ao festival do Alive, que estava a condicionar tudo o que era transportes públicos para Algés, o resto do percurso foi extremamente tranquilo. O que, considerando as minhas últimas viagens ao estrangeiro, foi um alívio e um sinal de que estava a fazer a escolha correcta,
Apesar de estar no meio de Julho, choveu a manhã toda de 2ª feira. Apanhei o autocarro desde o hotel para a sede do BAS e cheguei lá quase uma hora antes do previsto. Estava tão convencido que me iria enganar no autocarro ou algo do género que quando tudo correu como planeado, cheguei ao destino com uma hora para queimar. Acabei por aproveitar e dar umas voltas pela zona. A sede do British Antarctic Survey fica no estremo Oeste de Cambridge, quase no limite da cidade. Fica a pouco mais de um quilómetro do famoso laboratório Cavendish, onde cientistas como James Maxwell, Ernest Rutherford e J. J. Thomson trabalharam, como investigadores e professores. A vizinhança era intimidante
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